Tony Ramos: "O maior jurado da minha carreira é o povo"

18/09/2020 08h56


Fonte Revista Quem

Imagem: Iude RicheleTony Ramos(Imagem:Iude Richele)Tony Ramos

Aos 72 anos de idade, Tony Ramos é um dos grandes destaques nos 70 anos de TV no Brasil. Atualmente no ar como Miguel de Laços de Família (2000), no Vale a Pena Ver de Novo, da Globo, como Téo de Mulheres Apaixonadas (2002), no Viva, e como José Clementino de Torre de Babel (1998), disponível no Globoplay, o ator fala do apreço pela carreira em conversa Quem. Realizada por chamada de vídeo - assim como a sessão de fotos -, por conta das medidas de distanciamento social, a entrevista durou quase duas horas – uma hora e 47 minutos, para ser precisa – e o ator contou diferentes momentos da carreira, iniciada em 1964, na extinta TV Tupi.

“Na minha vida, eu nunca fiquei desejando personagem Y. Deixei acontecer. Posso citar uma dezena deles. O Riobaldo, de Grande Sertão Veredas, é um clássico, um ícone da televisão brasileira e aconteceu na minha vida por acaso. Estava na fila do banco e o diretor Walter Avancini me encontrou e falou: Quando acabar o que estiver fazendo aí, vem falar comigo. Estou há dois dias para te ligar. Você é o meu Riobaldo. Levei um susto”, conta o ator, que é paranaense, criado em São Paulo, mas vive no Rio de Janeiro há mais de 40 anos.

Sempre citado como um dos atores mais cordiais e educados do meio artístico, Tony é do tipo que gosta de uma boa prosa. “Tenho um celular que é para falar com a minha mãe, meus filhos, meus netos e, claro, minha companheira. Esse número nem a TV Globo tem (risos). É um número realmente muito pessoal. Às vezes, a gente fica horas conversando, usamos o Facetime para falar com os netos e ver como eles estão”, afirma ele, que mora em uma casa na companhia da mulher, Lidiane Barbosa, e da sogra, e tem Fátima Bernardes como vizinha de condomínio no Rio. Durante a quarentena, os encontros familiares mudaram. “Estou longe dos meus netos. A última vez que eu os vi foi pelo portão. Eles encostaram o carro, desceram e ficaram pulando… Depois, eles foram embora e tudo bem, paciência. É a vida, é o momento”, afirma o ator, casado com Lidiane há 51 anos, pai de Rodrigo, médico, e Andréa, advogada, e avô de Henrique, de 20, e Gabriela, 16, estudantes.

Embora não rejeite a tecnologia, Tony não se imagina com um perfil nas redes sociais. “Respeito, mas não é minha praia. Não vou fotografar um prato de comida para colocar no Instagram”, diz. Na opinião dele, os meios de comunicação tradicionais não deixarão de existir. “A TV aberta é popular e democrática. Quando o 5G aparecer, vai ser revolucionário e pode mudar a forma como vemos TV. Eu não assisto à TV pelo celular, não aguento ver um filme assim. A não ser como um quebra-galho, como na antessala do médico ou do dentista. Quando quero ler textos com fontes maiores, é no iPad que vou buscar. Para ler meus e-mails, abro pelo iPad que as letrinhas já estão maiores, mas é evidente que a TV vai se reinventando”, diz ele, também assíduo ouvinte de rádios. “Quando TV chegou ao Brasil há 70 anos, disseram que o rádio acabaria. O rádio está firme até hoje e se reinventado.”

Durante a conversa, Tony estava na companhia da cadela, a labradora Mel, em seu escritório. É lá que conserva seus livros, guarda os DVDs com trabalhos em novelas e prêmios e troféus, como o Kikito de melhor ator do Festival de Cinema de Gramado, conquistado pelo trabalho no filme Bufo & Spallanzani (2001).

Ao falar sobre a situação do país e o cenário político atual, Tony descarta a possibilidade de vir a ocupar um cargo público e afirma que sua grande preocupação é com o setor da educação. “O sistema educacional deveria ocupar a criança das 7h30 às 16h. As escolas públicas deveriam oferecer artes, esportes, além da grade curricular acadêmica. Esse é meu sonho. Não um sonho político, um sonho de um cidadão brasileiro. Eu moro aqui, não tenho casa fora, aqui que sobrevivo, é onde criei minha família. Sou um brasileiro que ama o país. Uma nação não é nação se não começar pela educação.”

Leia a entrevista completa abaixo:

Quem: Como tem sido seu período em isolamento social. Mudou sua rotina?

Tony Ramos: Mudou totalmente, não foi um pouquinho. Antes da pandemia, andava todos os dias com minha labradora, Mel, pelo condomínio. É uma companheira para todas as horas. Quando estou no escritório lendo, ela vem e deita ao meu lado. Agora, desde 10 de março, não mais. Não circulo. O máximo onde posso ir é até a nossa casa de campo. Até poderia ir, porque é só entrar no carro, botar a máscara, pegar a entrada e descer lá na garagem, mas não fiz. Achei melhor ficar quieto e ponto final.

Como é a preocupação na sua família? Seus filhos dão ordens para que não saia de casa?

Na verdade, não existe a palavra ordem em nossa família. Tenho um filho que está no dia a dia dos hospitais. Ele é cirurgião cardiovascular e opera diariamente. Como coração não tem hora, ele opera emergências e tudo mais. Desde o começo, ele disse: “Papai, essa doença não é brincadeira”. Minha filha, que é advogada, e o marido também respeitam as determinações de isolamento. Não houve pânico, houve a palavra mágica: “escute”. Escute a ciência, tome seus cuidados.

Seu dia a dia – com caminhadas, leituras de jornais – foi alterado de que forma?

Eu tenho 72 anos. Eu não abro mão dos hábitos, como a leitura, na minha idade. A leitura digital também é bem-vinda. Todas as manhãs, por volta das 7 horas, abro o Corrieri de la Sierra, um jornal italiano, que tenho a assinatura digital há alguns anos. Antes, ia até a uma banca do Rio de Janeiro que vendia o Corrieri, mas chegava sempre com um dia de atraso. O jornal de domingo, eu recebia na segunda. Mas com o advento da internet, fiz a assinatura digital e passei a lê-lo virtualmente. Gosto de ter notícias de outros cantos. Aos domingos, leio o New York Times, especialmente pelo caderno cultural com notícias de televisão, de cinema e, principalmente, de teatro.

Ao longo da sua trajetória em frente às câmeras, seu casamento com Lidiane costuma ser referência como união sólida. É verdade que promoveu um festão para celebrar os 50 anos de casamento em 2019?

Já completei as bodas de ouro. A festa foi uma reunião a família e alguns poucos amigos. Foi um momento de reencontro com a família – muitos vieram do interior de São Paulo e outros do interior de Minas Gerais. Houve um jantar muito bonito, ficamos todos reunidos, teve uma missa como eu e a Lidiane queríamos. O padre José Luiz, responsável por celebrar a missa, foi o mesmo que celebrou nossas bodas de prata e casou nossos filhos. Teve tudo do jeito como eu e Lidiane gostamos. Foi para nós, dentro de casa. Quando usamos o termo festa, muitos pensam em festão, com banda… Não, não houve isso. Houve nós, a família se reencontrando, conversas, troca de ideias.

Seus hábitos mudaram muito ao longo do tempo?

Meus hábitos, como ir à banca, eram os mesmos quando casamos. Não havia assinatura. Depois, passei a assiná-los. Quando mudei para o Rio de Janeiro, transferi a assinatura dos jornais paulistas para o meu endereço daqui e passei a assinar O Globo. Até hoje, é isso. É uma rotina boa. A rotina burra, a rotina chata é fogo, mas a rotina boa é disciplinar, te dá um conforto espiritual muito interessante. Acho que esses hábitos continuarei mantendo a vida inteira. Sou uma pessoa antenada com tudo. Por exemplo, esta ferramenta que usamos agora para conversar. Na Globo, usamos o Microsoft Teams, com reuniões de elenco e aulas. Na TV Globo, há uma divisão muito interessante que propõe verdadeiras aulas. Haverá uma discussão sobre a obra de Federico Fellini. Para participar, fazemos inscrições e, assim, participa quem quer, quem pode. É uma aula digital com grandes profissionais, especialistas e estudiosos. Esse é meu cotidiano. Agradeço as ferramentas modernas, ainda mais em uma situação de quarentena, como ter acesso a esse bate-papo virtual.

Como é sua relação com a tecnologia?

Tenho um celular que é para falar com a minha mãe, meus filhos, meus netos e, claro, minha companheira. Esse número nem a TV Globo tem (risos). É um número realmente muito pessoal. Às vezes, a gente fica horas conversando, usamos o Facetime para falar com os netos e ver como eles estão. Evidentemente, nesta situação, a gente não está se vendo. Já tenho neto em faculdade e sinto saudade, claro. Nossos papos nos almoços de domingo são sempre muito interessantes, o celular não vai para mesa, o papo rola… A gente conseguiu isso. Minha filha e o marido dela também vêm, quando possível. Somos uma família normal, uma família do cotidiano, uma família como eu sempre imaginei – com dores, alegrias, tristezas e buscando cada vez mais alegrias, lidando com doenças, aflições, angústias. É uma família como tem que ser. Uma família é uma tribo. Às vezes, a família pode ser de 1 + 1. Não precisa ter uma enormidade de filhos e filhos. É normal que se imagine uma família com filhos, mas também há famílias de dois. Tudo bem não ter filhos. Há pessoas que buscam a paz de espírito ou tenham outros ideais para a vida. A vida é múltipla. O bonito da vida é a multiplicidade no comportamento, sempre respeitando o espaço alheio, o pensamento alheio. O nirvana do mundo seria assim.

Você fala sobre a família de maneira afetuosa. Como tem encarado a distância neste período?

Estou longe dos meus netos. A última vez que eu os vi foi pelo portão. Eles encostaram o carro – o mais velho tem 20; a menina, 16 – desceram do carro, ficaram ali pulando… Algo que durou entre 10 e 15 minutos. Depois, eles foram embora e tudo bem, paciência. É a vida, é o momento. A gente não pode facilitar. Sei que é difícil para muita gente que não pode estar nessa condição de isolamento. Não é confortável falar: “todo mundo fechado”. Tem gente que sobrevive comercializando itens nas ruas, como vendedor visitando clientes. Tem muita gente prejudicada, tenho absoluta consciência disso, mas é necessário haver políticas públicas. Lidar com uma pandemia e não haver cuidados, posso garantir que a situação estaria muito pior. Se tivesse sido uma liberação total desde o início, o histórico seria outro – e ainda pior – tenho certeza.

Com a pandemia, as produções de TV foram afetadas. Você está reservado para a novela do João Emanuel Carneiro, certo?

De fato, estou na novela do querido João Emanuel, mas ainda não temos oficialmente quando será o início das gravações. Tem havido muitas especulações. No meu caso, a esta altura, eu já estaria na fase de reuniões de elenco, é uma fase que antecede a pré-produção. Seria a pré-pré-produção, quando recebemos as informações iniciais. Depois, na pré-produção, entra a fase de caracterização. Aquele lance de engorda, emagrece, pinta o cabelo, deixa embranquecer… Entre agosto e setembro, eu estaria nesta fase. As gravações, propriamente, deveriam ser a partir de meados de outubro. Óbvio que tudo isso caiu por terra. Não recebi os capítulos. João Emanuel, prudentemente, segurou tudo. Ele já escreveu muito. Já deve ter escrito uns 30 capítulos, mas pelo o que foi noticiado pela imprensa, o autor reavaliará. Antes de novela do João Emanuel, terá ainda a da Lícia Manzo e a volta de Amor de Mãe. Estou louco para ver a continuação de Amor de Mãe.

Você gosta de acompanhar novelas, então?

Fiquei louco quando parou, menina. Amor de Mãe é uma novela maravilhosa, com uma Regina Casé esplendorosa, e a suspensão foi justamente quando a Adriana Esteves ia colocar as garras para fora. Adrianinha é maravilhosa. O elenco todo é fantástico e afinado: Malu Galli deslumbrante, Chay Suede em uma interpretação sensível, Murilão [Benício], Vladimir [Brichta]… Todo elenco! É tanta gente para citar que acabarei esquecendo nomes. O elenco inteiro, a história da Manuela Dias é primorosa e merece ser terminada como merece. Com a conclusão de Amor de Mãe, a novela inteira da Lícia Manzo pela frente, eu não acredito que possa começar a gravar nada, receber textos do João Emanuel ainda. Deus permita que essa tão querida e esperada vacina chegue. É difícil planejar assim lá na frente, afinal eu já falo em planejamentos para o segundo semestre de 2021. Tenho um filme pronto para ser lançado e há a dúvida: lançamos primeiro no streaming e depois colocamos no cinema? Ou já fica direto no streaming? O filme 45 do segundo tempo, com direção do Luis Villaça, é realmente um poema, lindo. Tem Louise Cardoso, Denise Fraga, Cassinho [Gabus Mendes]… É uma comédia deliciosa. É uma incógnita o lançamento. É um filme muito bom, embora seja difícil falar de um trabalho feito por nós.

Sobre a nova novela, já começaram a sair algumas notícias, como a de que você fará um vilão. O que pode contar?

João Emanuel tem uma história fantástica, um folhetim de primeira ordem. Mas existe todo um mundo pós-pandemia para ver como será tratado na novela e isso caberá ao autor. Não queria estar na pele dele para definir. O jeito é aguardar, eu sou paciente. Na hora certa, a empresa vai resolver. A TV Globo não resolve “na galega”, de qualquer jeito. A TV trabalhou por mais de 60 dias os protocolos de retomada. Desde que o isolamento começou, a direção passou a ter reuniões diárias para ver. Temos que ter calma. Frente a uma pandemia como essa, é importante escutar o “agora, sim” da empresa.

Paralelamente, podemos te ver em três novelas disponíveis para o público.

Mulheres Apaixonadas entrou no Viva um dia antes do meu aniversário. Um presentaço. É um novelão. E como é bom rever Laços de Família, no Vale a pena ver de novo. São grandes novelas do Manoel Carlos, que bom rever os textos dele. Além delas, tem Torre de Babel, disponibilizada no Globoplay, é uma novela iconográfica. Tenho ela todinha gravada em VHS. Ainda tenho muitos materiais em VHS. Tenho tudo, tudo, tudo. Alguns já foram transpostos para DVD. Tive cenas de Torre de Babel gravadas do presídio do Carandiru, tive a cabeça toda raspada para viver aquele homem sendo redimido na vida. Ele matou a mulher, o amante da mulher, queria matar um terceiro… Ele teve um surto psicótico, mas, mesmo assim, não é certo matar. Teve que ser preso. Era uma novela com uma preocupação social muito grande. Silvio [de Abreu] foi muito feliz. Há 23 anos, quando a novela foi ao ar, não havia uma pessoa no país que não perguntasse: “Quem explodiu o shopping?”. Uma coisa louca, louca, louca…. Estou feliz com as reprises. O espectador tem a chance de ver trabalhos diametralmente opostos e, depois, é aguardar o ano que vem para ver o que resolvem. Dá vontade de trabalhar. Toda hora vem aquela dúvida de “quando começa?”, afinal quero voltar a trabalhar.
Imagem: Divulgação/TV GloboTony Ramos com diferentes caracterizações ao longo da carreira.(Imagem:Divulgação/TV Globo)Tony Ramos com diferentes caracterizações ao longo da carreira.

Do que sente mais falta? De estar nos estúdios gravando ou da fase de composição e estudos?

Lógico que dá saudade. De tudo. Tudo faz parte de um processo. Esse canto da casa em que falo com você, é o nosso canto – meu e a da Lidiane. É aqui que lemos, trocamos ideias. Às vezes, ela vê um filme enquanto estou lendo. Ela é uma companheira de todas as horas, assim como eu sou dela. Este canto é nosso, mas eu, principalmente em temporada de trabalho, passo mais tempo aqui. Estou com dois roteiros de filmes na minha mesa de trabalho. Um eu já li, outro vou ler. Um seria para novembro, que não acredito que aconteça em novembro, e deve ficar para fevereiro. Mas aí, terei que saber como estarei com a TV. há uma série de fatores. Por enquanto, ainda não posso falar muito. Aqui é meu templo, onde mais fico na casa. Tenho um tempo interior muito meu. Participei virtualmente do Encontro e a Fátima Bernardes perguntou: “Finalmente você cedeu às redes?”. Eu não tenho nenhum problema com as redes. Claro que não. Quem tem não pode estranhar eu não ter. É uma questão de perfil. Eu nunca quis saber da vida dos outros. Sou famoso na TV Globo por isso: se estão conversando alguma coisa que é assunto de terceiros, eu saio. Tem colega que brinca: “Chegou o Tony, muda o assunto”.

Não gosta de saber das fofocas?

Tô fora, tô fora… Acho perda de tempo. Acho que é ocupar a mente com o nada. Mas, por favor, respeito rede social, mas não é minha praia. Não vou fotografar um prato de comida para colocar no Instagram.

Nem criar um perfil para mostrar seu álbum de viagem?

Tá louco (risos). A viagem é para mim, para Lidiane, pros netos. Mas, ao mesmo tempo, não fujo de nada. Minha querida Maria Zilda fez uma sessão ao vivo – ou live, como dizem – dia 12 de agosto. Ela só faz pelo Instagram. Eu não tenho. Nem vou ter. Então, vou usar o Instagram emprestado. Não deixaria de dar uma entrevista a Maria Zilda, atriz que admiro muito e tem uma grande trajetória na televisão e no teatro.

Ary Fontoura criou um Instagram e é o maior sucesso.

O Ary Fontoura, como dizem, é o novo muso das redes (risos). E ele é um grande amigo amigo meu. Amigo mesmo, de dentro de casa, íntimo. Mas ele nunca veio dizer: “Você tem que ter o seu”. Ele falou que ia ter o dele e eu falei: “Ótimo!”. Eu continuo sem ter o meu.

E a sua família gosta da sua distância das redes ou seus netos pedem para você criar um perfil?

Meus netos não têm nem Facebook. Eles têm grupos no WhatsApp e nunca cobraram isso de mim. Meu neto mais velho até disse: “Ô, vô, você já aparece muito há tantos anos. Não precisa disso, não”. Respeito as redes sociais e acho úteis. Há situações em que você pode falar sobre uma criança que tem uma doença rara, precisa de um remédio caro… Isso é bem-vindo, é lindo. E fico sabendo disso pelos jornais e pela globo.com. Logo de manhã acesso. Assino duas revistas semanais, uma revista de economia, jornais. Adoro virar as páginas de um jornal e tomar café na minha caneca grandona. Também há rede pro mal, para o desrespeito… As pessoas são bobinhas e acham que não serão pegas, mas não é por aí. Dá para rastrear e processar alguém em 48 horas. Estou bem assim, não preciso de rede, não. A rede que eu gosto é aquela do Ceará, para descansar (risos).

E as expressões populares na internet? Lembro de uma vez que você comentou “por que selfie se temos autorretrato?”…

Mais uma observação de um velho chato, né? Nossa língua portuguesa é tão bonita. Lidiane fala: “Larga a mão de ser velho chato” (risos). Eu não me levo a sério. Quando estive em Portugal há uns quatro anos e uma família me reconheceu e falou: “Vamos fazer um autorretrato?”. Achei aquilo tão bonitinho. Mas, claro, também falou selfie. Se eu começar a falar autorretrato, vão me agredir. Nossa língua portuguesa é deslumbrante, apaixonante. De Machado de Assis a Guimarães Rosa, de Rubem Fonseca a Clarice Lispector, de Laurentino Gomes a Conceição Evaristo. Outro dia estava relendo Meu último suspiro - a autobiografia de Luis Buñuel – é um livro deslumbrante. Estava na minha estante. Peguei para ler e logo vi que estava na página 60. Outro livro que gosto de ler é A História da Civilização Ocidental, do Edward Mcnall Burns, que é fascinante. Preencho meu tempo com a palavra, acho a palavra fundamental. Mas, com o tempo também virou tb, você virou vc… Sei que isso faz parte do teclado, do cotidiano, que é mais rápido, mas quando vou elaborar um e-mail sei o que é vírgula, ponto, travessão, exclamação. A língua portuguesa é linda e tem que ser respeitada.

Nos dias atuais, muita gente parece mais preocupada em registrar o momento a vivê-lo. Já se sentiu incomodado com alguma abordagem? Antes era apenas o autógrafo, hoje é a foto, a selfie, o videozinho para mãe…

Aniversário da vovó! (risos) Já passei por tudo isso. Nunca digo não quando estou exposto publicamente, mas como ninguém tem meu celular de cabeceira, ninguém vai pedir isso para mim. Este número que falo com você, é um número que não é disponível. Se mandam um recado para a minha central de recados, pedindo um vídeo, como eu vou gravar? Se estou no aeroporto ou no shopping e sou abordado, eu posso gravar, mas quero que a pessoa apareça no vídeo comigo para eu não surgir, de repente, no celular da sua avó: “Dona Joana, Dona Josefa, aqui sou eu, Tony, e vim te dar parabéns”. Como isso? Como vou mandar um vídeo a quem não conheço? Sempre peço o favor que a pessoa que pede, comece o vídeo para eu falar na sequência. Assim, é democrático, civilizado e não íntimo. Não é porque você tem fãs que você é íntimo do seu fã. Isso é mentiroso. A relação bonita entre fã e artista – e do artista com o fã – é a do respeito, do afeto. Às vezes, quem está lendo aqui, pensa: “ah, que cara chato, vai dormir”, “ih, ele é da Globo! Globo Lixo”. As pessoas falam o que vêm à boca. Tem uma frase de um escritor indiano: “Cuidado com o ódio. Quem muito faz isso, um dia tem uma doença grave e não sabe o porquê”. Gravei isso para o resto da vida.

[Neste momento Lidiane entra na sala e Tony mostra a nossa conversa virtual: “Olha como isso é moderno?”]

Sua relação com a Lidiane é marcada por uma grande parceria.

É marcada por uma palavra com quatro letras: amor. Muito amor. E, fundamentalmente, muito respeito. Não é aquele amor de balcão, não sou o Romeu: “Ó, Julieta, minha amada, aqui estou”. Amor é carnal, amor é pele, é vontade de estar junto, é olhar para a amiga, para a mulher, para a namorada, para a amante e esse olhar da parceria ser um olhar que se multiplica pelos anos. Para isso, é preciso que haja respeito, afeto e que nunca haja soberba. Se há um sentimento que eu tenha verdadeira ojeriza este sentimento é a soberba. Outro dia vieram me perguntar sobre o “novo normal”. Não existe o novo normal para mim. Eu sou normal desde o antigo normal. Cuidados adquiridos durante a pandemia vão perdurar, assim espero. Não irei trabalhar na TV Globo nos próximos oito, nove meses sem minha máscara, sem as luvas descartáveis… “Ah, mas não vai mais ao banco tomar um café com o gerente?” Vou, mas de máscara. “Ah, já foi descoberta a vacina...” Ela leva, no mínimo, seis meses para aprovação. Terei uma nova maneira de encarar o meu normal. Tem muita gente que vem com a soberba, aquela vontade enorme de ser o dono da verdade, de pontuar… Quando descobrirem a vacina, muitos vão voltar a ficar com aquela postura “dona de si”, cheios de soberba… Claro que eu gostaria de ver uma sociedade diferente, mas eu não me iludo. O ser humano é feito de medo, de paixão, de amor, de maldade e, de repente, de ganância. Às vezes, a ganância pelo poder e pelo dinheiro se sobrepõe aos outros sentimentos, infelizmente. E não digo isso falando de ateus e religiosos. Tem muito ateu que é muito melhor que muito carola de igreja. Eu sou muito religioso. Acredito não só em Deus, como nos meus anjos protetores. É um direito de ter esse pensamento de que falta religiosidade. Mas como se respeito o ateu? A religiosidade do ateu pode estar no respeito ao próximo, no respeito à raça do próximo, ao gênero do próximo, à vida sexual do próximo… O pós-pandemia vai melhorar isso? Não sei. Deus permita. Quando chegar a vacina, o normal que sempre habitou em mim continuará habitando. A vida segue com afeto, amor e respeito. Temos 51 anos de vida em comum. A gente não conseguiria manter esse tempo todo se não houvesse respeito, sonhos compartilhados e humor. Ah, o humor. Eu tenho muito e ela tem ao cubo. Ela não se leva a sério, é muito culta, muito bem informada…
Imagem: Arquivo PessoalTony Ramos e Lidiane Barbosa: casados desde setembro de 1969.(Imagem:Arquivo Pessoal)Tony Ramos e Lidiane Barbosa: casados desde setembro de 1969.

Essa leveza é fundamental?

Especialmente para uma pessoa que não é do meio aguentar a minha profissão. O pessoal da Globo já foi surpreendido coma minha mulher atrás das câmeras durante uma gravação aguardando a hora de terminar para a gente sair para jantar? Quantas vezes ela não viu cenas de amor, de beijo, de abraço, de tragédia, de drama?

Alguma notícia falsa já chateou?

Nossa relação sempre foi às claras. Nunca escondi minha vida pessoal, falo sobre ela sem problemas, mas não vou expor a ponto de abrir a casa e fazer fotos na cama. Preservo essa minha vida. Quando sou surpreendido pelo paparazzi em shoppings, eu dou tchau. Se estou comendo uma empada, pergunto: “está servido?”. Não vou deixar de comer minha empada, minha coxinha – amo coxinha -, mas teve um dia que eu estava comendo uma coxinha no Leblon e percebi o fotógrafo disparando. Estendi: “você quer?”. Ele sorriu, agradeceu, não vou fazer disso um problema. Teve uma vez que me fotografaram com meus netos no meio da areia no Réveillon de Búzios. Levantei a champanhe. Era um lugar público. Agora, a minha casa não é pública.

E o que falar sobre essa onda de conservadorismo?

Sempre existiu, não nos iludamos. Sou conservador em uma série de coisas, meu jeito de ser é conservador, mas você não está me vendo criticar outras pessoas viverem suas vidas de maneiras diferentes. Manifestações políticas? Eu sou pela democracia. Podem inventar o que quiser, várias sugestões de poder. Nada supera a democracia. Nada é melhor que a democracia. Democracia demanda respeito ao próximo, não ódio, notícias falsas. Jamais teria um Facebook para replicar notícias falsas. É desesperador ver o tanto de remédios milagrosos surgiram para a Covid. Em nenhum momento, eu não desrespeito a opinião alheia, mas não sou obrigado a entrar em um partidarismo. Nunca tive. Você nunca me viu em um palanque político. Isso não significa que eu não ligue para política. Nós somos seres políticos. O que estamos conversando é um ato político, mas o que realmente vale a pena nesta vida é o respeito à opinião alheia. Não que a opinião alheia seja a verdade absoluta. Ninguém tem a verdade absoluta. Quem tem a verdade absoluta, para mim, é Deus. Respeito qualquer manifestação. Hoje, há muita intolerância. As pessoas implicam com casamentos homossexuais. Pô, deixa cada um viver a sua vida.

No Dia dos Pais, implicaram que Thammy foi escolhido para uma campanha...

Pô, vão cuidar das suas vidas, vão lavar um tanque de roupas. É uma coisa que é diferente para quem é conservador ou a quem não é habituado àquilo? Sim, mas você tem a obrigação de se informar sobre novos momentos que a vida está te mostrando no mundo inteiro. Não pode vir uma espada de cima para baixo e dizer: “tem que ser assim”. Tem que ser assim, por quê? Sou conservador na minha família, na minha intimidade… Para você ter uma ideia, conservo minhas amizades de infância.

Você tem amigos que não são do meio artístico?

Claro! Conservo essas amizades, mas não sou um conservador que fecha os olhos para o progresso do conhecimento. O pensamento e a atitude fruto do pensamento é mutante. Ninguém vai me enfiar goela abaixo que eu seja como terceiros. No quesito da democracia, se não está feliz com um político, não fique em casa reclamando no dia da eleição. Vá lá e vote. Pelo voto e pela democracia, pode haver mudanças. Nada é mais gostoso do que ir e vir, poder opinar, ter divergências. Se um parente pensa diferente de mim, mas não vou criar polêmica. Não vou brigar com um parente ou com uma pessoa querida por causa de política, eu mudo de assunto. Percebo que o assunto não vai para frente, chego e falo: “fica com a sua opinião, eu fico com a minha e vamos falar de outro assunto. Vamos falar de futebol!” (risos)

E quando o assunto é futebol, você é daqueles são-paulinos roxos?

Sou São Paulo, sim. Tenho até máscara com distintivo do São Paulo, mas roxo, não. Sou um tricolor consciente. Torcedor roxo é quando a pessoa não tem um raciocínio lógico. Essa máscara do São Paulo uso quando tenho que buscar alguma entrega, é mais para situações de casa, do dia a dia. Tenho outra máscara mais especial que a que usarei para ir ao trabalho. Quando vai ser? Não tenho a menor ideia.

Você falou sobre democracia. Se recebesse um convite político, alguma chance de aceitar?

Ocupar cargo público nunca chamaram, já digo não aqui, publicamente. Porém, há pelo menos 15 anos, eu fui procurado – não vou citar nomes – para me candidatar a deputado ou senador. É mole? Obrigado, não. Nunca tive filiação partidária, não quero e não vou ter. Como artista e ser humano, quero ter distanciamento crítico para falar bem ou mal quando eu quiser, não ter rabo preso – como não tenho.

Assim não fica vinculado a algo que possa futuramente te prejudicar.

Posso fazer uma propaganda, mas só faço propaganda daquilo que eu consumo ou acredito. O telespectador vai lá, compra ou não. Agora um voto? Indicar alguém para nos comandar? Jamais induziria alguém! Não é do meu feitio e jamais será.

Como enxerga a situação da Cultura atualmente?

Preocupante, absolutamente preocupante.

Regina Duarte saiu da Secretaria da Cultura, entrou Mário Frias…

Pois é. Sejam felizes. Não adianta você tentar fazer alguma coisa se você não tem um programa de cultura. A cultura gera 3,5% ou 4% do PIB nacional, a grana que a cultura pode oferecer à nação. Se alguém usou a Lei Roaunet de forma fraudulenta, que sejam feitos inquéritos. Para filmes argentinos, espanhóis, ingleses há apoio estatal. O Canadá tem verbas e mais verbas para a cultura, há um fundo europeu. A Argentina tem problemas tão graves quanto os nossos na economia, mas segue apoiando o cinema. Eu, particularmente, quero muito saber como apoiaremos a cultura circense, o balé, as orquestras regionais… Como podemos estimular o jovem à boa música? Nas rádios, nos meios de comunicação, no Spotify, ele terá acesso ao rap, ao samba, ao samba enredo, hip hop, às músicas de Carnaval, mas é preciso haver uma política cultural que apresente ao jovem outro tipo de música. O sistema educacional deveria ocupar a criança das 7h30 às 16h. As escolas públicas deveriam oferecer artes, esportes, além da grade curricular acadêmica. Esse é meu sonho. Não um sonho político, um sonho de um cidadão brasileiro. Eu moro aqui, não tenho casa fora, aqui que sobrevivo,é onde criei minha família. Sou um brasileiro que ama o país. Uma nação não é nação se não começar pela educação. Você já parou para pensar no salário de um professor?

Você é filho de professora, inclusive.

Sim, minha mãe tem mais de 90 anos. Ela é da época de pegar na mão de aluno e ensinar a escrever, alfabetizar. Minha irmã – do casamento da minha mãe com meu padrasto – que é 17 anos mais nova que eu, é professora também. Sou filho de uma classe trabalhadora, comecei a trabalhar aos 14 anos de idade. Ninguém precisa me contar os filmes das dificuldades e de como é a realidade de uma família em que todos trabalham porque este filme e conheço bem.
Imagem: Divulgação/TV GloboTony Ramos com diferentes caracterizações ao longo da carreira na TV.(Imagem:Divulgação/TV Globo)Tony Ramos com diferentes caracterizações ao longo da carreira na TV.

Por ter começado cedo, em algum momento já pensou em parar, em aposentar?

Eu já sou aposentado pelo INSS. Aposentei-me com 37 anos e 8 meses. Sou um aposentado do INSS, assim como Lidiane também é. Agora pensar em parar com meu trabalho? Nunca pensei. Acho que, para a minha idade, estou bem. Dá para fazer titio, vovô, vovó… Fantasiado, até vovó. Minha profissão tem essa necessidade. Não dá para fazer uma novela com jovenzinhos de até 40 anos. Tem que contar a história do pai, do tio, do avô, do velho babão que se apaixona por uma menina de 20 e poucos. Afinal, essas histórias são da vida. Tem personagens o tempo inteiro pronto para serem feitos. Aliás, tenho ideias aqui, uma delas para voltar para o teatro e envolve um grande amigo meu. Por enquanto, não posso falar porque ficou tudo para o ano que vem, pelo menos. A partir de fevereiro, março, haverá notícias.

Você é noveleiro. Quando assiste a uma produção já se pegou em um ciuminho, pensando “como eu queria esse papel...” ou com dificuldade de ver um papel que foi seu em algum remake?

Nunca! Teve o remake de O Astro e o Thiago [Fragoso] fez absolutamente bem, brilhantemente. Eu tinha feito aquela novela em 1977. Ter ciúme? Jamais. Outra novela que fiz e daria um belo remake é Baila Comigo. Fiz gêmeos. Ter ciúme dos personagens? Eu não. Tá louco, eu hein… Ficar lambendo cria que já foi? Tô fora. Assim como quando saio do estúdio, não levo personagem para casa. Eu entro no carro e vida que segue. Esse negócio de ficar carregando personagem não é comigo. Assim como não é comigo este negócio de assistir um colega trabalhando e pensar: “esse papel bem que podia ser meu”. Não mesmo! Outro dia estava vendo As Filhas da Mãe aqui em casa, coloquei o DVD para ver em casa e me diverti com aquele meu papel, o Manolo. Tinha Claudia Ohana, Claudia Jimenes, minha saudosa Cleyde Yaconis fazendo minha avó. Se fizerem uma nova versão desta novela, minhas bênçãos. Façam-na. Sou daqueles atores que ligo para os colegas quando os vejo em cena. Por exemplo, eu não tinha o telefone da atriz Elizângela. Quando ela fazia a mãe da Juliana Paes, como Bibi Perigosa, em A Força do Querer, ela fez uma cena que me deixou completamente entregue, emocionado. Eu não tinha o telefone dela, nem qualquer telefone que pudesse ser um contato com ela. No dia seguinte, liguei para a Divisão de Atores lá da Globo, falei com André, disse que era eu e ele me passou o telefone da casa dela. Liguei e, do lado de lá, momentaneamente, ela achou que fosse trote. Pedi para que não desligasse, contei quem havia me passado o contato e aí ela se surpreendeu. Cumprimentei-a pela excelência que teve em cena, adorei aquela personagem. Faço isso com amigos meus, colegas meus. Há colegas que não são íntimos meus. Já há outros que são amigos íntimos, de longa data, como [Antonio] Fagundes, Irene Ravache, Ary Fontoura, Milton Gonçalves, Tarcísio e Gloria, [Miguel] Falabella, Chico Cuoco… Vou parar de falar porque, depois, podem me questionar: “não sou seu amigo, pô”. O Paulo Figueiredo é outro querido amigo e compadre. São a eles que falo: “não passa o outro telefone, esse ninguém tem” (risos). É uma forma que eu tenho de me preservar. Ligo para eles, tenho grandes papos. Realmente não tenho um lado ciumento, de inveja. Sempre lembrei-me da primeira lição que aprendi nesta profissão: o sucesso é primo-irmão do fracasso. Você pode ter dois, três fracassos e, de repente, vem um sucesso tão retumbante que matou os três fracassos. É viver um dia após o outro, respeitar o próximo e assumir o que gosta e curta.

Com as novas gerações, você gosta de passar seus valores, conselhos?

Deixo eles perguntarem. Não sou catequizador.

Se eles perguntam, você é aberto ao diálogo?

Muito. Mais do que você possa imaginar. Jovens, homens, mulheres, queridos companheiros… Seja em um set de filmagem, seja no set de uma locação… Tantos já me perguntaram sobre a profissão em como proceder. Aí, eu respondo. Agora, eu sair falando “não, isto não” ou “no meu tempo...”, nossa, estou fora! Se me perguntam, eu respondo. Fora isso, tô fora.

Hoje em dia, muito se fala na questão de celebridade X artista. Muitas vezes, um ex-BBB alcança milhões de seguidores rapidamente. Como você enxerga isso?

Eu li um livro em inglês que falava sobre os novos caminhos da comunicação há um ano e meio. Em vários países do mundo, especialmente Inglaterra e França, muitos veículos de comunicação sérios não dão mais eco àquilo que os chamados influenciadores falam. Quando a gente fala em 4 milhões de seguidores, não significa que são seguidores durante as 24 horas. É um clique. Fiz filme Getúlio – que teve quase 1 milhão de espectadores, mas não é um blockbuster como Tropa de Elite ou Minha Mãe é uma Peça – e quando passou no Tela Quente, na TV Globo, em 24 de agosto de 2014, tivemos um público de 35 milhões de espectadores. Isso prova que a TV aberta está firme. A internet veio há pouco mais de 20 anos e intensificou-se nos últimos 12… Quando TV chegou ao Brasil há 70 anos, disseram que o rádio acabaria. O rádio está firme até hoje e está se reinventado. Eu adoro ouvir a CBN, por exemplo. Aliás, que eles nunca mudem o slogan de “a rádio que toca notícia”. Eu também ouvia muito a BandNews FM com o saudoso Ricardo Boechat. O rádio tem a diversidade de articulistas, grande colunistas e opinadores à direita e à esquerda. E também consigo acessar a rádio pelo meu desktop e, além de escutar, vejo o [Roberto] Nonato, a Cássia [Godoy]… Às vezes, tô lendo e arriscando uma olhada no que falam na rádio. Adoro ouvir os comentários do João [Marcello Bôscoli], filho da Elis Regina, sobre música e o professor Pasquale sobre a nossa amada língua portuguesa. O rádio se reinventou. No meu carro, quando termino de gravar e estou voltando para casa, ligo a rádio e coloco no Quatro em Campo para escutar essa mesa redonda de futebol para escutar no trajeto de volta para casa.

O universo das comunicações te interessa bastante, não?

Eu leio tudo, minha filha. Leio publicações sobre televisão. Sem pedantismo, eu me considero um homem que entende muito de televisão e comunicações. Nem na Inglaterra, a BBC fala em acabou meu tempo. A TV aberta é popular e democrática. Muitos sites se alimentam da TV aberta. Quando o 5G aparecer, vai ser revolucionário e pode mudar a forma como assistimos TV. Eu não assisto TV pelo celular, não aguento ver um filme assim. A não ser como um quebra-galho, como na antessala do médico ou do dentista. Quando fico carro, no estacionamento, aguardando a Lidiane fazer uma compra, ou quando estou na sala de embarque do aeroporto… Você acha que isso vai substituir a minha 50, 80 polegadas para ver meu filme ou meu futebol? Ver na tela pequenininha? É ruim, hein? É importante saber se servir desses novos acessórios, dessas novas ferramentas. Quando quero ler textos com fontes maiores, é no iPad que vou buscar. Para ler meus e-mails, abro pelo iPad que as letrinhas já estão maiores… É evidente que a TV vai se reinventando. Em plena pandemia, poder falar por meio dessas tecnologias de comunicação, mas é claro que não vejo a hora que volte o público, o olho no olho, nada melhor do que isso.

Você já declarou que dirigir ou mesmo escrever seriam possibilidades. Ainda é uma vontade?

Vontade não é bem palavra. Isso norteia o meu pensamento. Não é uma vontade no sentido de “tenho que escrever”, “tenho que dirigir”… Aliás, na minha vida, eu nunca fiquei desejando personagem Y. Deixei acontecer. Posso citar uma dezena deles. O Riobaldo, de Grande Sertão Veredas, é um clássico, um ícone da televisão brasileira e aconteceu na minha vida por acaso. Estava na fila do banco e o diretor Walter Avancini me encontrou e falou: “Quando acabar o que estiver fazendo aí, vem falar comigo”. Eu na fila do banco, pagando contas e o Avancini disse: “Estou há dois dias para te ligar. Você é o meu Riobaldo”. Levei um susto. Conhecia a obra da época da faculdade. Minha reação foi: “Ô, louco”. Ele falou para eu reler o livro, mas disse que já havia me convencido, perguntei quando seria a reunião e fiz o papel. Prefiro assim, deixo acontecer. Também posso dizer “não”. Nessa altura da minha carreira, também posso dizer não, falar quando não me interessa. Mas, geralmente, só me oferecem aquilo que me inquieta e aquilo que eu realmente gostaria de fazer.

Por mais que você tenha uma gama de personagens, já se incomodou quando surge algum comentário do tipo “mas ele é sempre o bom moço”? Afinal, você já fez serial killer na Tupi, papel gay no teatro…

Fui a Geni de A Ópera do Malandro, no espetáculo Meu Refrão – Olê, Olá fiz 11 personagens do Chico Buarque. Quando ouço ou leio algum comentário desse tipo, eu passo reto. O maior jurado da minha carreira é o povo, o espectador. É para ele que eu trabalho. Se falam que eu ganhei o Kikito no cinema, o Shell no teatro, o APCA, não sei quantos Troféu Imprensa… Sou grato. No interior de São Paulo, falariam mas é um farso humilde (risos). Não sou falso humilde, sou grato a premiações, tenho até premiações fora do país – como o Festival Internacional de Punta Del Este, quando ganhei pelo conjunto da obra. Já fiz personagens muito românticos, os chamados galãs heróicos e nada contra. Era o momento da minha carreira, era mais jovem. Nada me deprecia porque eu me autorrespeito e respeito quem me assiste.

Você disse que não inveja o papel dos outros. Também não tem um papel dos sonhos?

Não, não tenho nada dos sonhos. Aliás, nem lembro direito o que eu sonho. É um fenômeno curioso. Claro que eu devo sonhar, mas não lembro. E sou longe de ser daqueles que se impressiona: “sonhei tal coisa, o que será que significa?”. Tô fora. Sonho é o armazenamento que tem na sua mente do dia que você passou, ou de algum assunto que foi tratado. Cientificamente, já foi falado disso, mas não sou de me impressionar com essas coisas. Para mim, sexta-feira 13 é véspera de sábado 14. Não sou uma pessoa supersticiosa. Falam dessa minha questão de ser bom bom moço… Se o fato de eu respeitar o próximo, de respeitar meu trabalho, não invejar pessoas, não desejar aquilo que não é meu, respeitar meu casamento, meus filhos, minha saúde, minha vida, a opinião alheia e a vida dos outros, se isso é ser bom moço, então eu sou bom moço. Tem gente que fala um monte de palavrão e escrevem: “fulano tão autêntico...”. Falar palavrão para uma plateia heterogênea, não é ser autêntico, é ser mal-educado. Tem muitas pessoas – senhoras, senhores e até jovens – que se chocam com palavras ditas no momento errado. Mas se eu não falo palavrão? Se quiser, eu solto uns 140, inclusive os mais cabeludos. Mas vou soltá-los assistindo a um jogo de futebol entre amigos, por exemplo. Meu senso de respeito ao próximo passa por aí. Sou autêntico sendo assim. Não vou mandar uma frase bombástica para chocar as pessoas. Se eu fizesse isso, não seria autêntico comigo mesmo.


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Tópicos: globo, novela, tony