´´O morro dos ventos uivantes´´ estreia: quais as diferenças entre o livro clássico e o novo filme?
12/02/2026 11h23Fonte G1 cultura
Imagem: Reprodução

Sempre que um clássico literário ganha uma nova adaptação, a primeira coisa que fãs querem saber é se o filme faz jus ao original. A segunda é quais as diferenças entre as duas obras. "O morro dos ventos uivantes", estrelado por Margot Robbie ("Barbie") e Jacob Elordi ("Euphoria"), que estreia nesta quinta-feira (12) no Brasil não se preocupa muito com essas questões.
Não é por indiferença propriamente dita. A diretora/roteirista Emerald Fennell é uma apaixonada declarada pelo livro que Emily Brontë lançou em 1847 — ela apenas decidiu se inspirar na história gótica vitoriana e fazer algo novo, sem tantas amarras a pontos considerados dogmas para alguns admiradores.
Por isso, é possível destacar três grandes diferenças entre as versões. A principal, bem clara desde o primeiro trailer, é o foco na sensualidade/sexualidade da relação entre o casal de (belíssimos) protagonistas.
O filme mostra o DNA provocador do estilo da cineasta, já anunciado em "Saltburn" (2023), e transforma a relação dos personagens principais muito mais próxima do que a do livro — na qual os dois no máximo trocam um beijo desesperado.
Brontë prefere manter a obsessão entre ambos nos campos psicológico e espiritual.
A segunda grande mudança também se relaciona com a linguagem de Fennell, que desde "Bela vingança" (2020) é abertamente interessada em discutir abusos, mas sempre da maneira menos óbvia o possível.
Por isso, o tema, tão central à narrativa do livro, é transformado em um jogo quase erótico, que se estende além do casal e que borra os limites entre consentimento, subjugação e humilhação.
A obra do século 19 também explora hereditariedade de trauma e ciclos de violência ao acompanhar a trama em uma segunda geração de protagonistas — personagens totalmente ausentes no filme.
Mas e Heathcliff?
Interpretado por Elordi na nova versão, Heathcliff é inegavelmente branco — uma mudança considerável em relação ao livro, que o descreve como alguém de pele escura, com aparência estrangeira para a Inglaterra do século 19.
A troca de etnia, presente na grande maioria das incontáveis adaptações da história para o cinema e para a TV — no filme de 1992, por exemplo, ele é vivido por Ralph Fiennes —, gerou reclamações de "whitewashing". Ou seja, quando um personagem de outra etnia é transformado em caucasiano.
A acusação é justa. Papeis para atores pertencentes a minorias ainda não são o padrão em Hollywood e eliminar uma vaga em um clássico é sempre triste.
Há também a defesa que a cor da pele de Heathcliff ajuda a formar o rancor e o sentimento de não pertencimento do personagem — algo que até faz sentido, claro, mas que o filme justifica com a velha disputa de classes da época. O envolvimento de uma aristocrata com um plebeu já não seria chocante o suficiente?
Por fim, em época de sensibilidades à flor da pele e problemas de intepretação de texto, é importante lembrar que Heathcliff vira uma pessoa amarga e cruel. No livro, aliás, ele termina em uma espiral de ressentimento e crueldade que se transforma na maior das apatias — um estereótipo por muito tempo reservado exatamente a minorias.
Apesar das mudanças, o filme é bom?
O filme é excelente – só não é aquele que talvez os fãs de Brontë estivessem esperando.
Para isso, Fennell abraça visuais deslumbrantes, uma trilha sonora exagerada e muito tesão.
Boa parte do enredo original ainda está lá, mas passa pela visão um tanto única da diretora/roteirista, que prefere focar na relação doentia entre o casal de protagonistas, e em como ela afeta pessoas com azar o suficiente para estarem em sua órbita.
Morro de exageros
Assim como no livro, o novo "O morro dos ventos uivantes" conta a história do relacionamento entre uma jovem de família nobre e um plebeu – e como a diferença entre os dois provoca um ciclo de vingança e loucura.
Na versão de Fennell, tudo é exagerado.
A música é alta e cheia de violinos. Os cenários parecem quase um sonho – ou um pesadelo. Os figurinos poderiam ter saído de um desfile temático da Semana de Moda de Paris.
A tensão sexual é quase sólida, e há uma névoa de suor meio que perpétua gerada por corpos quentes nos morros gelados e uivantes.
Até o melodrama fica ainda mais melodramático – por mais que as partes mais pesadas do livro tenham ficado de fora. E dá para entender quem não consegue curtir tanto.
Primeiro, por adoração à obra original. Segundo, porque dá para discutir uma possível banalização do sofrimento e de relações bem doentias.
Mas há também a análise de que arte nem sempre precisa se preocupar com essas coisas.
Felicidade dura pouco
Margot Robbie está ótima como sempre, mas é Jacob Elordi quem realmente se destaca como o "bruto" Heathcliff – e até se redime pela criatura meio água com açúcar que entregou em "Frankenstein" (2025).
Do restante do excelente elenco, Alison Oliver ("Task") é provavelmente a grande revelação do filme e é impossível ignorar o jovem Owen Cooper, garoto que ficou conhecido pela série "Adolescência".
A única que destoa levemente é Hong Chau ("A baleia"), que, apesar de incrível como sempre, parece um tom abaixo, quase como se sua dama de companhia pertencesse a outro filme – talvez uma adaptação mais fiel ao livro.
Lá pela metade, no momento inevitável em que tudo está ótimo, o casal está feliz e o brilho do sol acentua as cores da grama, o ritmo fica perigosamente lento.
Por sorte, felicidade dura pouco e logo o filme engata novamente, e vai que é uma beleza até o final trágico. Não é sempre que dá para dizer isso, mas, no caso de "O morro dos ventos uivantes", o público quer mesmo é uma boa dose de sofrimento.
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