Caso Camilla Abreu: no Tribunal do Júri, testemunhas relatam que acusado tentou ocultar marcas

24/09/2021 14h35


Fonte G1 PI

Imagem: ReproduçãoCapitão da PM é acusado de matar a estudante Camilla Abreu(Imagem:Reprodução)Capitão da PM é acusado de matar a estudante Camilla Abreu

O julgamento do ex-capitão da Polícia Militar Allison Wattson da Silva Nascimento, acusado de matar a estudante de direito Camilla Pereira de Abreu, de 21 anos, em outubro de 2017, acontece nesta sexta-feira (24), na 2ª Vara do Tribunal do Júri. O ex-policial militar era namorado da vítima e confessou o crime na época.

O júri teve início às 9h, no Fórum Cívil e Criminal, comandado pela juíza Rita de Cássia da Silva, da 2ª Vara do Tribunal do Júri.

O promotor de acusação do caso é João Benigno Filho, que tem como assistente as advogadas de acusação Ravenna Castro e Carla Oliveira. Na defesa do réu estão os advogados Francisco de Assis Silva e Daniella Carla Gomes Freitas.

Testemunhas ouvidas

A primeira testemunha a ser ouvida no julgamento foi Luana Regina de Sousa, que era amiga de Camilla, a última a ter contato com a vítima horas antes do crime, em um bar onde foram Luana, vítima e acusado.

O advogado de defesa do ex-namorado de Camilla, Francisco de Assis Silva, pediu que a testemunha não fosse ouvida alegando que ela tinha “amizade íntima” com a vítima. Mas, o pedido foi indeferido pela juíza.

Chorando muito, Luana começou a ser ouvida falando dos últimos momentos em que esteve com Camilla antes de seu desaparecimento e depois contou como era o relacionamento entre a vítima e acusado.

Ela afirmou que o relacionamento durou cerca de dez meses e, antes dela morrer, o namoro era abusivo, com agressões físicas e psicológicas. Na noite do crime, segundo ela, o acusado acompanhava Camilla até quando a vítima ia ao banheiro do bar, como se monitorasse a jovem.

A defesa do acusado acusou a jovem de ter mentido durante o julgamento, sobre ligações recebidas por ela partindo dos telefones do acusado e de Camilla no dia do crime.

A jovem disse não lembrar-se exatamente dos horários das ligações recebidas, por isso não tinha como afirmar sobre os horários e quantas ligações havia recebido. Também questionada sobre onde o corpo de Camilla foi encontrado, a jovem não soube responder a pergunta e se emocionou bastante.

Neste momento, o depoimento precisou ser interrompido por cerca de 15 minutos, porque Luana chorava muito. Ela finalizou o julgamento afirmando não saber onde e como o corpo de Camilla havia sido encontrado.

Marcelo da Silva Barroso, lavador de carros, foi o segundo a ser ouvido. Ele disse que o acusado chegou no carro com muito sangue sob o banco do carro do lado da vítima e pagou R$ 40 pelo serviço. Segundo ele, o encosto do banco já não estava no carro.

Ele informou que o ex-capitão foi questionado por ele sobre o motivo do sangue no carro e o acusado relatou que havia acidentado e socorrido duas vítimas na estrada, que ficaram feridas.

Segundo ele, uma lavagem inicial foi feita, mas foi necessário encaminhar o veículo a um posto de lavagem, devido à grande quantidade de sangue.

Jaldo Viana, dono de um posto de lavagem onde o veículo também foi higienizado, relatou que o acusado havia relatado aos funcionários do posto a mesma justificativa para a presença de sangue no carro.

Os trabalhadores do posto estranharam a justificativa, segundo ele, porque o carro não tinha marcas de colisão. Ele pagou cerca de R$ 200 para a lavagem no local.

Segundo ele, foi necessário fazer a retirada do carpete do carro por conta da grande presença de sangue e que havia sangue no teto, nos bancos do passageiro e motorista e no carpete do veículo.

Ele disse que trabalhava no setor administrativo da Secretaria de Segurança do Estado e que, quando soube do caso pela imprensa, associou as informações e informou a um policial militar que havia lavado um carro semelhante ao do acusado, com muitas marcas de sangue. Horas depois, o capitão foi preso, segundo ele.

Jones Castelo Branco da Costa, dono de uma loja de autopeças, disse que antes da prisão e depois de lavar o carro, o acusado foi até sua loja para comprar um banco novo para o carro, já que o banco do passageiro, onde a vítima estava quando foi assassinada, precisou ser retirado. O ex-capitão teria pago cerca de R$ 200 pelo banco.

Defesa alega disparo acidental
“Tenho certeza de que ele sai antes e vai ficar solto, mas ela é quem está presa, não sai mais”, afirmou Jean Carlos. Camilla hoje teria 26 anos.
Jeane Rodrigues de Abreu, tia de Camilla, disse que espera que justiça seja feita e que o acusado receba a pena máxima.

Como o crime aconteceu

Em entrevista antes da audiência, o advogado afirmou que a tese da defesa é de que o disparo que matou Camilla foi acidental e que a teoria é amparada por perícias técnicas presente nos autos do processo.

"A defesa não tem outra tese a não ser a formada nos autos através das perícias técnicas realizadas, que, na verdade, o que houve foi nada mais do que um acidente. Um disparo acidental que culminou, infelizmente, na morte da vítima. Não houve intenção. A própria perícia descreve isso", declarou.

Família acompanha do lado de fora e pede justiça

A família não acompanha o julgamento de forma presencial, mas foram ao tribunal como forma de protesto contra casos de feminicídios. O pai da vítima, Jean Carlos Abreu, disse que espera que o acusado seja condenado com a pena máxima.

O então capitão da Polícia Militar, Allison Wattson, namorou a estudante de direito Camilla Abreu por cerca de dez meses, entre términos e retornos. Amigas da estudante relataram, à época do crime, que o réu tinha comportamento “agressivo” e era extremamente ciumento e possessivo.

Na noite do dia 25 de outubro, ele foi a última pessoa que esteve com Camilla e somente cinco dias depois confessou que a matou, com um tiro na cabeça, dentro do carro dele e enterrou o corpo em um lixão no povoado Mucuim, zona rural de Teresina.

O desaparecimento de Camilla chegou a ser registrado no Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa (DHPP) e a polícia passou a investigar. Durante os cinco dias que a família procurou a estudante, o policial alegava que a tinha deixado na casa do pai, depois de saírem, e não a tinha visto mais.

Allison foi preso ao confessar o crime e mostrar onde estava o corpo. No início das investigações, ele chegou a dizer que o tiro havia sido acidental, mas o laudo pericial descartou a possibilidade. Ele foi preso em flagrante e um dia depois a prisão foi convertida em preventiva.

O então capitão ficou em um presídio militar até perder a patente e ser expulso da Polícia Militar em fevereiro de 2019. Depois, ele foi transferido para a penitenciária Irmão Guido, onde está até hoje.

A Polícia Civil indiciou o namorado da vítima por três crimes: feminicídio, ocultação de cadáver e fraude processual. A perícia constatou ainda que Camilla foi agredida antes de ser morta com o tiro na cabeça. A audiência de instrução e julgamento realizada em fevereiro de 2018 decidiu que o caso iria a júri popular, que julga crimes dolosos contra a vida.