Juiz de cidade do Piauí é acusado em 11 processos por crimes

06/11/2011 23h30


Fonte Fantástico

Curimatá tem dez mil habitantes, que convivem com o medo e insegurança. A cidade fica no extremo sul do Piauí, a 775 quilômetros da capital, Teresina. Os prefeitos entram no gabinete de Curimatá e são retirados por ordens judiciais. Batendo um recorde de prefeitos que se revezam na administração.

Imagem: DivulgaçãoJuiz de cidade do Piauí é acusado em 11 processos por crimes.(Imagem:Divulgação)Juiz de cidade do Piauí é acusado em 11 processos por crimes.

A equipe de reportagem foi até lá procurar pelo prefeito atual. Que não estava. “Mas tem o representante! É o Joaquim, que é o controlador do município”, avisa uma moça.

"Desde o ano de 2008, isso tem sido um problema com frequência em Curimatá. A troca de prefeito", afirma o chefe do controle da prefeitura, Joaquim Alves da Silva.

A cada troca de prefeitos, a cidade para. "Como nessa cidade, a maioria das pessoas depende de emprego da prefeitura, elas ficam sem saber o que vai acontecer. O comércio para, sem receber dinheiro", diz o professor Ramon Torres.

"Quem paga com essas brigas políticas é a população, a pobreza. Porque eles são ricos, botam o dinheiro no bolso e os pobres vão sofrer", afirma a dona de casa Quitéria César Leite.

O prefeito José Arlindo da Silva voltou de viagem. Estava se defendendo em mais um processo de cassação, no Tribunal Eleitoral do Piauí.

Repórter: Prefeito, o senhor lembra quantas vezes já assumiu a prefeitura e quantas vezes saiu?
Prefeito: Rapaz, eu não tenho 100% de certeza. Você me pegou desprevenido nessa parte aqui. Mas eu acredito que foram umas quatro ou cinco vezes.

Repórter: Quando o senhor foi eleito, com uma diferença pequena, menos de 400 votos, não pôde assumir no prazo legal, porque o senhor estava preso em Pernambuco, acusado de roubo de cargas?
Prefeito: Veja bem, é verdade.

"De forma bastante lamentável, a Câmara de Vereadores de Curimatá fez uma manobra no sentido de elastecer esse prazo, de 10 dias para 90 dias, no sentido de proporcionar tempo para que o mesmo se desvencilhasse daquela prisão e pudesse vir a tomar posse", explica o promotor de Justiça Rômulo Cordão.

Repórter: O senhor está sendo acusado de outros crimes, entre os quais, de compra de votos?
Prefeito: Olha, veja bem. É muito difícil hoje um prefeito que não seja acusado de compra de voto. O difícil é provar.

Na quinta-feira da semana passada, depois que a entrevista foi gravada, o prefeito José Arlindo foi afastado pela sexta vez em julgamento no Tribunal Regional Eleitoral do Piauí. O TRE mandou marcar uma nova eleição indireta na Câmara de Vereadores de Curimatá para escolher o prefeito substituto no prazo de 30 dias. A cidade fica, mais uma vez, se comando.

A única agência bancária de Curimatá já foi assaltada cinco vezes. No último assalto, os bandidos ficaram mais de 40 minutos dentro da agência.

"São assaltos feitos por grupos organizados, que vêm fortemente armados, em caminhonetes. São vários homens e aí, literalmente, fecham a cidade. Eles abordam a delegacia, rendem os policiais, tomam armas e saem atirando. As autoridades do estado do Piauí sabem disso. O secretário de Segurança sabe disso. Mas, infelizmente, não tomam providências", diz o promotor Rômulo Cordão.

Além de sofrer as consequências do troca-troca de prefeitos, os moradores da Curimatá são reféns da insegurança e da violência. “Para começar, nenhum juiz titular na comarca temos. Nós temos um juiz substituto, da comarca de Redenção", reclama a dona de restaurante Leila Nobre de Carvalho.

Um dos maiores exemplos de impunidade e insegurança na região é o juiz, que durante dez anos, respondeu pela comarca de Curimatá e hoje, está em prisão domiciliar. Ele é acusado em 11 processos por crimes, inclusive de homicídio. E um caso raríssimo na Justiça: presidiu um julgamento, onde ele deveria estar no banco dos réus.

Repórter: Ele teria mandado matar e ele mesmo julgou o processo?
Promotor de Justiça: Julgou e pronunciou o réu.

O promotor de Justiça Rômulo Cordão acusa também o ex-juiz de Curimatá de acobertar pistoleiros: "Esse pistoleiro, que era procurado há sete anos, estava justamente guardado, escondido na casa do juiz", lembra.

O juiz tem vários processos, inclusive por venda de sentenças. Ele já foi condenado por um dos crimes, a 11 anos e 8 meses de prisão.

Na rua, ouvimos também acusações ao juiz Osório Marques. "Eles mataram um filho meu e o finado Zé Carlos. Duas vítimas. Eles mataram em uma hora. Ali é réu, assassino, perigoso. Nunca foi juiz", afirma o agricultor Adão Bispo da Silva.

Foi feito contato, para que o pai dele responda às acusações. A equipe seguiu o carro com os dois filhos do juiz, pela estrada de terra, no meio da caatinga, por dez quilômetros, até chegar ao lugar do cativeiro domiciliar, para ouvir Osório Marques.

"Em Curimatá, quem não é de Deus é do Satanás. Vamos exemplificar com nós dois. Tem dois candidatos. Se o senhor vota em João e eu voto em Pedro, eu para o senhor não tenho o mínimo valor. Assim como o senhor, para mim, não tem o mínimo valor. Isso é mais uma questão política do que uma questão jurídica", justifica.

Ao ouvir que tem um pai que o acusa ter matado o filho dele: "Ele é muito mentiroso!".

O juiz Osório revela que seu próprio irmão matou o filho do agricultor. “Na verdade, eu tenho um irmão unilateral, um tanto quanto desajuizado, que foi com ele, a mando não sei de quem, e mataram o rapaz", afirma.

O repórter apresenta uma certidão do Poder Judiciário do estado do Piauí, onde o juiz é acusado em vários processos: por tortura, porte ilegal de arma, lesão corporal, homicídio, posse ilegal de arma de uso restrito e abuso de autoridade.

Repórter: O senhor não sente remorso, vergonha, arrependimento, de ser um representante da Justiça e estar acusado de tantos crimes?
Juiz: Eu nunca torturei ninguém. Eu nunca dei tiro em ninguém. Eu nunca matei ninguém. Eu fiz o bem. A raiva que têm de mim é isso.

O povo de Curimatá espera uma solução contra a impunidade. Todos querem uma chance de viver em paz, em segurança, amparados pela Justiça. Enquanto o gabinete do prefeito volta a ficar vazio: uma cadeira sem dono, em uma cidade sem lei.

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