Flamengo diminui número de atletas na base, admite abrir mão de títulos e foca em criar talentos

24/01/2026 11h34


Fonte ge

Na última sexta-feira, todas as comissões técnicas das categorias de base do Flamengo, do sub-6 ao sub-20, se reapresentaram para dar início à temporada 2026. E elas tiveram uma reunião na Gávea com a presença do diretor Alfredo Almeida, português trazido por José Boto no ano passado para comandar as categorias de formação do clube. Mas o que mudou desde então?

O Flamengo conquistou títulos relevantes na base nos últimos anos. Foi bicampeão da Libertadores e do Mundial com o time sub-20 em 2024 e 2025. Conquistas expressivas, mas que não são parâmetro para avaliar o sucesso do trabalho, na visão da diretoria. Nos últimos meses, o clube mudou a filosofia de trabalho das categorias inferiores e quer voltar a apostar no talento dos jovens brasileiros, mesmo que isso signifique resultados esportivos não tão bons nos próximos anos.
Imagem: Gilvan de Souza / FlamengoAlfredo Almeida, diretor da base do Flamengo, em reunião de início da temporada 2026.(Imagem:Gilvan de Souza / Flamengo)Alfredo Almeida, diretor da base do Flamengo, em reunião de início da temporada 2026.

O time sub-20 rubro-negro deu as caras no início desta temporada ao representar o Flamengo nos três primeiros jogos do Campeonato Carioca profissional. Depois de um empate e duas derrotas, a diretoria decidiu antecipar a volta de Filipe Luís e seu grupo no clássico contra o Vasco, vencido por 1 a 0. Alguns jovens seguirão sendo aproveitados pelo treinador ao longo da temporada.

A avaliação da diretoria, que assumiu o clube no início de 2025, é que o Flamengo tem criado poucos talentos nos últimos anos. Desde Vini Jr, vendido ao Real Madrid (Espanha) em 2018, poucos garotos causaram impacto. João Gomes, negociado em 2023 com o Wolverhampton (Inglaterra), é exemplo mais recente de um talento revelado.
Imagem: Gilvan de Souza / FlamengoBruno Pivetti, técnico do sub-20 do Flamengo, na reunião da base.(Imagem:Gilvan de Souza / Flamengo)Bruno Pivetti, técnico do sub-20 do Flamengo, na reunião da base.
Investimento em talentos

A primeira ação de Bap foi enxugar funcionários e atletas na base. O Flamengo reduziu o número de jogadores de 400 para aproximadamente 250. O presidente explicou, durante reunião com conselheiros em dezembro, que a meta é contratar reforços pontuais e focar em atletas entre 15 e 17 anos, adquiridos por valores considerados baixos internamente, de até R$ 2 milhões. Se pelo menos uma das apostas se concretizar, compensaria todo o aporte.
Imagem: DivulgaçãoSamuel, lateral da base da Ferroviária.(Imagem: Divulgação)Samuel, lateral da base da Ferroviária.

Entre reforços que chegaram ao Flamengo do segundo semestre do ano passado para cá estão: o volante Raimundo (16 anos) e o atacante Heitor (17), que estavam no Vila Nova; o lateral-esquerdo Samuel (17), da Ferroviária; o zagueiro Paulo César (16), do América-MG; o goleiro Pedro Henrique (17), do Palmeiras; o atacante Isaac (16), do Fortaleza; o goleiro Nicolas (15), do Avaí; e o volante Kaio Júnior (19), do Juventude, segundo noticiado pelo portal "Flabase" e confirmado pelo ge.

O Flamengo também firmou novas parcerias com clubes formadores desde o segundo semestre do ano passado: o Inter de Minas, sedidado em Itaúna, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e o Tolentino Esportes, de Itapitanga (BA). Eles se juntaram a outros dois antigos parceiros do Ninho do Urubu: o CEWG (Centro Esportivo Wilson Goiano), que fica em Trindade (GO) e atua com os rubro-negros desde 2023; e o Clube Trieste, de Curitiba, que abastece a base do Fla desde 2018 e inclusive já foi destacado na imprensa europeia como "celeiro secreto" da Gávea (veja na imagem abaixo).
Imagem: Reprodução / ASJornal espanhol As destaca celeiro do Flamengo na base: Trieste FC.(Imagem:Reprodução / AS)Jornal espanhol As destaca celeiro do Flamengo na base: Trieste FC.


A mudança de filosofia passa pelo o que o diretor de futebol José Boto disse em sua entrevista de apresentação ao Flamengo, em dezembro de 2024:

— A base é minha área. É algo de que vou me orgulhar. Temos que criar esse DNA, jogadores talentosos e ao mesmo tempo responsáveis. Conheço bem o Brasil, no Shakhtar tínhamos 14 brasileiros, buscamos jogadores que nem sequer tinham jogado Série A e em alguns meses estavam jogando Champions. Aqui no Brasil se foi buscar muita coisa ruim que se faz na Europa. Na Europa, viemos aqui para buscar coisas boas que vocês faziam na base.

— Há que voltar um pouco atrás ao que vocês foram os reis. É o fundamento do futebol brasileiro, dar essa liberdade aos jovens atletas de errar, experimentar, de não estar agarrado em sistemas táticos. Depois vão ter tempo para isso. É fundamental mudar a forma como se formam jogadores no Brasil. Vocês estavam bem, foram copiar a Europa e neste momento estão mal. Não produzem tanto talento quanto há 10, 30 anos. Isso é algo que teremos que mudar.

Sob nova direção
Imagem: DivulgaçãoAlfredo Almeida, do Flamengo, em visita ao Tolentino Esportes.(Imagem:Divulgação)Alfredo Almeida, do Flamengo, em visita ao Tolentino Esportes.

Sete meses depois, o Flamengo entendeu que as demandas do futebol profissional não deixavam Boto dar a atenção necessária à base e fez mudanças na estrutura. O português Alfredo Almeida, braço direito do diretor de futebol, foi o escolhido para comandar as categorias inferiores. Isso explica a busca rubro-negra por repetir um modelo que é seguido na Europa.

Há um entendimento no clube de que, por muitos anos, privilegiou-se atletas mais fortes fisicamente, o que garantiu conquistas, mas nem sempre formou jovens prontos para o nível profissional. Com inspiração em modelos europeus, como o do Barcelona, o Flamengo quer colocar o fator técnico no centro do processo. É uma aposta que vai exigir paciência, como explicou Bap, já que os resultados esportivos não serão imediatos. Mas o sucesso será medido por outro termômetro: a capacidade de formar atletas que alimentem o time principal e deem retornos financeiro e técnico. Assim, em 2026 e em 2027, a diretoria deixará de priorizar títulos para investir na criação de talentos.

Alfredo tem orientado de perto as mudanças. Seus braços direitos na base são os coordenadores. Kadu Borges é o responsável por acompanhar de perto as categorias superiores, do sub-14 ao sub-20. Danilo Mattos é quem coordena do sub-13 para baixo. O Flamengo fez um movimento para valorizar técnicos do sub-13 ao sub-20, dando importância também às categorias inferiores. Bap explicou ainda que foi criado um mecanismo de participação financeira, com profissionais da base recebendo um percentual sobre o saldo entre compra e venda de atletas formados ou identificados por eles.

Mudança de mentalidade
Imagem: André Durão / geFelipe Teresa foi autor do gol do título mundial sub-20 sobre o Olympiacos em 2024.(Imagem: André Durão / ge)Felipe Teresa foi autor do gol do título mundial sub-20 sobre o Olympiacos em 2024.

Os atletas negociados ou dispensados fazem parte de uma mudança de mentalidade: o Flamengo se desfez de "jogadores-problema" com o objetivo de implantar uma nova cultura de esforço, dedicação e responsabilidade no dia a dia. Vários nomes deixaram a base e, em alguns casos, o clube não manteve percentual nem recebeu compensação. Em todas as contratações ou saídas, a diretoria procura manter atletas que considera ajustados à mentalidade do clube.

Recentemente, o Flamengo rescindiu amigavelmente com vários jogadores do sub-20, como por exemplo o goleiro Lucas Furtado, o volante João Alves e os atacantes Petterson e Felipe Teresa, autor do gol do título mundial sub-20 sobre o Olympiacos (Grécia) em 2024.

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Tópicos: flamengo, clube, jogadores