Teresa Cristina pisa com firmeza no terreno autoral de Zeca Pagodinho, no álbum Jessé

19/01/2026 10h50


Fonte G1 cultura

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Teresa Cristina pisa com firmeza no terreno autoral de Zeca Pagodinho, no álbum Jessé(Imagem:Divulgação)

É com o canto a capella dos versos “Eu sou verso e sou reverso / Sou partícula do universo / Sou prazer, também sou dor / Eu sou causa, sou efeito / Eu sou torto e sou direito / Enfim, eu sou como eu sou” que Teresa Cristina abre o álbum em que dá voz a doze sambas de autoria de Zeca Pagodinho, bamba nem sempre reverenciado como compositor na medida do talento para fazer música e/ou letra.

Ouvidos na abertura do álbum “Jessé – As canções de Zeca Pagodinho”, os versos do partido alto “Pisa como eu pisei” (Aluísio Machado, Beto Sem Braço e Zeca Pagodinho, 1988) soam como carta de princípios de cantora que não prima pela técnica vocal exemplar, mas é uma cantora de verdade, daquelas que põem a alma na voz e que entendem o sentido e o sentimento dos versos que canta.

Também (boa) compositora, Teresa Cristina é profunda conhecedora da produção autoral dos bambas dos nobres quintais cariocas. Até por isso Teresa pisa com firmeza no terreno autoral de Zeca Pagodinho, se desviando dos sucessos do bamba para jogar luz sobre sambas tornados obscuros na poeira do tempo.

Gravado com produção musical de Pretinho da Serrinha, o álbum “Jessé – As canções de Zeca Pagodinho” foi lançado ontem, 17 de janeiro, com capa que traduz em signos e símbolos a natureza do cancioneiro e da alma de Jessé Gomes da Silva Filho, nome de batismo de Zeca.

O filtro de barro em cima da mesa da sala sinaliza que o disco está enraizado no subúrbio carioca enquanto a imagem de São Jorge / Ogum remete à devoção de Pagodinho. Já o figurino azul e branco evoca a Portela, escola de samba da devoção do compositor e da intérprete.

E, não por acaso, Teresa Cristina sabe realçar o DNA melódico e poético da velha guarda portelense que rege a criação de “Falsa alegria” (1992), parceria de Zeca com Monarco (1933 – 2021), lançada no álbum “Um dos poetas do samba” (1992), título de fase menos conhecida da discografia de Zeca.

Desse período de menor visibilidade na obra fonográfica do artista, Teresa também põe “Lente de contato” (Jorge Simas, Wanderson Martins e Zeca Pagodinho, 1990) em evidência neste álbum que se alinha com os songbooks já presentes na discografia dessa intérprete que já dedicou discos inteiros aos cancioneiros de Cartola (1908 – 1980), Noel Rosa (1910 – 1937) e Paulinho da Viola, além de ter feito show centrados nas obras de Candeia (1935 – 1978) e Zé Ketti (1921 – 1999).

Enfim, Teresa Cristina sabe onde pisa quando canta um samba como “Vem pra ser meu refrão” (1989), parceria de Zeca com Arlindo Cruz (1958 – 2025) até então gravada somente pelo cantor Reinaldo (1954 – 2019). Zeca tampouco gravou “Voo de paz” (1986), samba para o qual Zeca escreveu letra lírica em versos afinados com o espírito da bela melodia, típica do parceiro Jorge Aragão. Teresa alça voo alto na faixa porque é cantora talhada para dar voz à tristeza que balança.

Jorge Aragão também é o parceiro de Zeca em “Testemunha ocular” (1987) e em “Mutirão de amor” (1983), grande samba (este composto pela dupla com a adesão de Sombrinha) apresentado por Alcione no álbum “Almas & corações” (1983).

Não, Teresa Cristina não reinventa à roda nas dez faixas do álbum “Jessé – As canções de Zeca Pagodinho”. Os sambas são cantados com a base tradicional do gênero. Decisão acertada, até porque o foco do songbook é evidenciar as melodias e letras de Zeca Pagodinho.

O álbum reúne doze sambas em dez faixas porque tem dois medleys. Um junta os temperos dos partidos altos “Jiló com pimenta” (Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, 1983) e “Já mandei botar dendê” (Arlindo Cruz, Zeca Pagodinho e Maurição, 1995). Essas duas iguarias foram condimentadas por Zeca com o parceiro e amigo de fé Arlindo Cruz, com quem Jessé também fez “Meu poeta” (2011), samba mais dolente e lírico, também assinado por Junior Dom e gravado por Arlindo no álbum “Batuques e romances” (2011).

A décima faixa do álbum ainda será lançada futuramente. Trata-se de música inédita de Zeca com Beto Sem Braço (1940 – 1993), “Na pedreira de Xangô”, samba de batuque evocativo dos tambores do Candomblé.

O samba inédito é unido no álbum “Jessé”, em medley costurado pelo link da fé religiosa, com “São José de Madureira” (Arlindo Cruz e Zeca Pagodinho, 1984), samba lançado por Beth Carvalho (1946 – 2019), cantora antenada que apresentou Zeca Pagodinho ao Brasil no álbum “Suor no rosto” (1983).

Ganhou projeção ali um bamba, partideiro dos bons, intérprete afiado, mas também bom compositor de sambas que ganham luz no álbum “Jessé – As canções de Zeca Pagodinho” na voz também antenada de Teresa Cristina, cantora que sabe pisar no chão que a consagrou a partir de 1998.