Documentário de LÃrio Ferreira mostra como Alceu Valença armou o circo e encarou a repressão
04/04/2026 12h32Fonte G1 cultura
Imagem: Reprodução

Filme em cartaz na 31ª edição do festival de documentários É Tudo Verdade, com sessões entre 8 e 18 de abril nas cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP).
“Esse disco é, no fundo, um circo para mim. Eu começo com a voz do palhaço. Esse disco representa tudo o que eu vivi na minha infância... E de repente eu mudo tudo”. Ouvida quase ao fim de “Vivo 76”, documentário do cineasta Lírio Ferreira sobre a caminhada que levou Alceu Valença até “Vou danado pra catende”, show de 1975 que gerou em março de 1976 o álbum “Vivo!”, a frase do artista faz sentido no roteiro do filme.
É que, ao repisar os passos seguidos por Alceu Valença até 1976, o diretor Lírio Ferreira parte da infância vivida pelo futuro cantador na cidade natal de São Bento do Una (PE), município do agreste pernambucano em que o circo atiçou a mente desde sempre elétrica do menino Alceu.
Idealizado por Lírio Ferreira e Cláudio Assis em 2016, o filme “Vivo 76” chega às telas uma década depois – assinado somente por Lírio – como uma das atrações principais da 31ª edição do festival de documentários É Tudo Verdade, programado para acontecer entre 9 e 19 de abril nas cidades de Rio de Janeiro (RJ) e São Paulo (SP). “Vivo 76” é a atração da abertura da programação carioca do festival, em sessão (para convidados) agendada para 8 de abril.
O mote do filme são o show “Vou danado pra catende” e o já cinquentenário álbum “Vivo!”, marcos da trajetória de Alceu Valença pelo som então inovador que harmonizou a pulsação dos gêneros musicais nordestinos com a energia do rock. Contudo, o roteiro trata especificamente de show e disco na metade final do documentário produzido pela Jurema Filmes.
Antes, o espectador acompanha o percurso de Alceu até aquele momento definidor, em rota que passa pela gravação do primeiro álbum solo do cantor, “Molhado de suor”, disco lançado em 1974 sem repercussão. “Esse disco não é tão sertão profundo. Ele é mar. Ele é Boa Viagem (bairro da região litorânea do Recife). Ele é água, as águas da Baía da Guanabara”, avalia Alceu diante das câmeras de Lírio Ferreira.
Pontuado por várias músicas do show de 1975, o roteiro do documentário “Vivo 76” é entremeado por falas de Alceu, captadas em várias entrevistas concedidas ao diretor e também de material de arquivo de TVs. Mas o artista não fala sozinho. Lírio Ferreira abre o microfone para o crítico musical Antonio Carlos Miguel, o músico e pesquisador musical Charles Gavin e o biógrafo de Alceu, Júlio Moura, entre outros nomes.
E, verdade seja dita, os depoimentos geralmente são elucidativos e/ou reflexivos, sem se limitar ao jogo de confetes recorrente em documentários. Moura, por exemplo, discorre sobre a ida de Alceu para os Estados Unidos em 1969, durante o mítico Festival de Woodstock, e lembra que, mesmo com sucesso, o show de 1975 enfrentou resistência entre a elite cultural, lembrando a patrulha dos jornalistas do semanário “O Pasquim” ao entrevistarem Alceu.
Entre os acertos do filme, cabe destacar o reencontro de Alceu Valença com Geraldo Azevedo – com quem Alceu dividiu o primeiro álbum da discografia, gravado e lançado em 1972 – no palco e na plateia do Teatro Claro Mais, nome atual do Teatro Tereza Rachel, onde Alceu estreou no Rio de Janeiro (RJ) o show “Vou danado pra catende”, captado para o disco na última apresentação da temporada carioca, em 7 de setembro de 1975.
Com Azevedo, Alceu cantarola no teatro músicas como “Aquela rosa” (Geraldo Azevedo e Carlos Fernando, 1967) e “Talismã” (Alceu Valença e Geraldo Azevedo, 1972). O depoimento de Geraldo Azevedo faz o filme focar na repressão sofrida por artistas que combatiam a ditadura. É que Azevedo fala da ocasião em que foi preso e torturado. Momentos depois, Alceu conta que ficou abalado com a notícia da prisão do amigo, recebida durante a temporada do show “Vou danado pra catende”, a ponto de pensar em ir embora do Brasil.
É sagaz a ideia do diretor Lírio Ferreira de, nesse momento, entremear no roteiro takes do clipe de “Retrato 3 x 4” – música gravada por Alceu para a trilha sonora da novela “O espigão” (1974) e veiculada em vídeo exibido pela TV Globo no programa “Fantástico” – com imagens do povo brasileiro lutando contra a ditadura em passeatas.
O tom político adquirido pelo documentário nessa parte final ecoa o preconceito sofrido por Alceu, comumente apontado na época como “louco”, “maluco” e até “toxicômano” pelo simples fato de usar cabelo grande. E foi como um cabeludo circense que Alceu enfrentou a repressão e foi para a Praia de Copacabana promover com um megafone o show que, antes de se tornar um sucesso cult, teve a temporada literalmente esvaziada em apresentações feitas para público reduzido.
“O show estreou com 39 pessoas na plateia”, contabiliza Alceu, lembrando que o público foi diminuindo a tal ponto que, em determinada sessão, havia somente cinco espectadores. Foi quando Alceu arregimentou os músicos da banda – que incluía o guitarrista Paulo Rafael (1955 – 2021), o baterista e percussionista Israel Semente Proibida (falecido em 1995), Zé da Flauta, o percussionista Agrício Noya (falecido em 2015) e o então desconhecido Zé Ramalho (na viola) – e foi armar o circo na praia.
Inusitada, a ação de marketing deu tão certo que o show passou a encher o Teatro Tereza Rachel e foi gravado ao vivo para gerar um disco que deu um norte na carreira de Alceu Valença, artista do tipo que muda tudo e que, como ele mesmo reconhece com orgulho no filme, sempre teve salutar dose de loucura que o impediu de virar mero escravo da cultura do entretenimento.
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