Canto límpido de Rita Benneditto vai da seresta à oração em álbum com o violonista Jaime Alem

02/11/2022 11h03


Fonte G1

Imagem: DivulgaçãoClique para ampliarCanto límpido de Rita Benneditto vai da seresta à oração em álbum com o violonista Jaime Alem(Imagem:Divulgação)Canto límpido de Rita Benneditto vai da seresta à oração em álbum com o violonista Jaime Alem

Iniciada em escala nacional há 25 anos, com a edição do álbum Rita Ribeiro em 1997, a carreira de Rita Benneditto – nome adotado pela artista maranhense no meio da travessia, em 2012, para evitar pendenga judicial com outra cantora – ficou marcada pela explosão do show Tecnomacumba (2003).

Prestes a completar 20 anos em 2023, sem ter saído da agenda da artista, o show deixou o canto límpido de Rita primordialmente associado a repertório de matriz afro-brasileira, calcado na saudação sincrética de santos e orixás.

Nono título da discografia da cantora, posto no mundo digital em 28 de outubro, o álbum Rita Benneditto convida Jaime Alem se desloca do eixo afro-brasileiro ao abranger repertório de estética mais ampla, realçando a luminosidade da emissão vocal dessa intérprete extremamente afinada, em 12 gravações feitas pela artista com Alem, violonista e arranjador ainda associado ao trabalho feito com Maria Bethânia, de quem foi diretor musical de 1988 a 2010.

Basta ouvir o registro da canção O sal da terra (Beto Guedes e Ronaldo Bastos, 1981), segunda das 12 músicas do disco, para perceber a limpidez do canto de Rita Benneditto.

Gravado no estúdio carioca Músika entre junho e julho deste ano de 2022, sob direção musical de Alem, o disco oferece recorte de Suburbano coração, show que vem sendo apresentado pela cantora com o violonista nos últimos anos.

O caráter humanista do show transparece no disco através da seleção de repertório que por vezes exala romantismo nostálgico, explicitamente perceptível em No tempo dos quintais (Sivuca e Paulinho Tapajós, 1979) – faixa em que o violão de Além adquire apropriado tom seresteiro – e em O que fomos nós, inédita (em disco) versão em português de Jaime Alem para The way we were (Marvin Hamlisch, Marilyn Bergman e Alan Bergman, 1973), sucesso da cantora norte-americana Barbra Streisand.

Ao fim da gravação, Rita canta trecho da letra original em inglês, e cabe ressaltar que a versão de Alem flui bem e soa fiel ao sentido do tema em que a saudade do amor vivido é expressada sem dor, como lembrança de tempos bons.

O violão de Jaime Alem é co-protagonista deste disco que realça a beleza do canto de Rita, mas não se trata exatamente de disco de voz e violão. Canto indígena recolhido por Marlui Miranda na tribo Urubu-Kaapor, Credo (1997) ressoa embasado pelo suave baticum de caxixi e maracá percutidos por Alem e Rita, respectivamente.

Mais quente, a rítmica de As asas (1996) faz o álbum levantar voo, reiterando a sintonia de Rita com o cancioneiro de Chico César, compositor recorrente na primeira fase da discografia da cantora.

Herança do roteiro do show Encanto (2014), Canto de luz (João Pereira Godão, 2005) irradia a brasilidade entranhada na obra de Rita em sintonia com a escolha de Se não existisse o sol (Chagas, 2009), composição associada originalmente à cadência do bumba-meu-boi.

Já o canto do samba Meu lugar (Arlindo Cruz e Mauro Diniz, 2007) representa ponto deslocado na rota do disco pelo fato de a cantora exaltar Madureira – bairro cultuado no mapa carioca por sediar importantes escolas de samba – sem parecer ter real vivência com o local. A faixa soa artificial.

Em contrapartida, Rita imprime outro sentido em Super-homem, a canção (Gilberto Gil, 1979) por ser voz feminina que alerta homens, em tempos de masculinidade tóxica, para a descoberta de porções mais sensíveis do ser.

Sucesso retumbante de Amelinha ao ser apresentada em festival de 1980, a bela canção Foi Deus quem fez você (Luiz Ramalho) tem o lirismo popular da letra posto em contraponto com o toque da guitarra de Jaime Alem.

Além da função de violonista, Jaime faz discreta segunda voz na gravação de Feliz com meu bem (2010), tema romântico da lavra do próprio Alem.

No arremate do disco, a voz de Alem se faz ouvir novamente nos improvisos de Rosa de Hiroshima (Gerson Conrad a partir de poema de Vinicius de Moraes, 1973). “Pense na rosa da Baixada / Pense na rosa da Maré”, pede Jaime Alem, quase como um sussurro, citando comunidades e locais carentes do Rio de Janeiro nesta faixa que soa como oração, reforçando o tom humanista deste disco afinado com os novos tempos que começam a gerir o Brasil.

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