Fazia sol no Rio de Janeiro na manhã daquela sexta-feira, 11 de outubro, quando uma rádio anunciou a morte de Renato Russo, com apenas 36 anos. Enquanto amigos e familiares corriam para o apartamento do artista no bairro de Ipanema, onde ele passou isolado as últimas semanas de vida, debilitado pelo HIV, o Brasil já chorava a despedida do líder da Legião Urbana. Fã nenhum esquece aquele dia.

Passados 30 anos, nem Renato, nem sua obra que atravessou gerações foram esquecidos. Quem conviveu com o cantor, no palco e na vida, sabe a força do seu legado e de sua presença.

"O Renato ocupa um espaço muito grande no meu 'presente'. Ele está presente constantemente no carinho dos fãs que cruzo pelas ruas quando tentam me lembrar da importância do trabalho que fizemos juntos na Legião Urbana. Mas eu gosto de lembrar dos momentos felizes que a gente teve e que foram muitas risadas e muito trabalho sério dedicado às nossas ideias", diz o baterista Marcelo Bonfá, um dos fundadores da banda.

'Diferente, especial, magnético'

O guitarrista Dado Villa-Lobos, também fundador da Legião, destaca qualidades do amigo que nem todo mundo conhecia:

"Renato era esse cara diferente, especial, magnético, e eu posso dizer, muito generoso e que acreditava no potencial das pessoas e de como a gente trabalhava junto. Ele era esse cara que a gente conhece com aquela voz incrível e com aquela interpretação das canções de um jeito muito especial, aquele alcance vocal. Ele era um cara definitivamente especial mesmo".

'Sonho adolescente que foi realizado', diz Dado

Do primeiro disco da Legião Urbana, lançado em 1985, ainda um pouco desacreditados pela gravadora, ao último, já póstumo, de 1997, foram mais de 20 milhões de cópias vendidas. No repertório, músicas que questionavam "que país é este?", clássico do terceiro álbum, ou "como é que se diz eu te amo?", na balada "Vamos fazer um filme".

"O legado são esses 13 anos de banda que produziu essas dezenas de discos e que tocou as pessoas do Brasil do Oiapoque ao Chuí, leste, oeste, e que até hoje a gente percebe que estamos aí no coletivo universal brasileiro. É a magia da música e é um sonho adolescente que foi realizado de a gente formar uma banda e transformar as pessoas através da sua música", diz Dado.

'Uma letra que já falava da partida dele'

Das 158 obras musicais de Renato Russo, "Tempo perdido" não é só a mais tocada como também a mais regravada, com 343 gravações segundo dados do Ecad, órgão responsável pela arrecadação e distribuição dos direitos autorais no país. Entre elas, está a versão de 1988 feita pela cantora Leila Pinheiro, de quem o cantor ficou amigo.

"Fui ao encontro do Renato na Ilha do Governador, na casa de uma avó dele. Eu gravava o álbum 'Alma' e escolhi 'Tempo perdido'. Convidei-o para escrever algumas palavras sobre este álbum e ele aceitou de pronto. Este foi nosso primeiro encontro", conta Leila, que também não se esquece da última vez em que estiveram juntos:

"Renato me telefonou perguntando se eu sabia tocar bossa nova no violão. Me surpreendeu a pergunta, e chamei-o para vir ao meu estúdio, trazendo a letra nova. Ele chegou aqui, propus meu piano ao invés do violão, e foi surgindo uma melodia para letra chamada 'Hoje'. Fiz um blues, lento e denso, para uma letra que já falava da partida dele".

Um hino de esperança

Renato Russo partiu, mas nunca foi ausência. Nesses 30 anos, vários livros sobre ele foram lançados — o mais recente, "Renato Manfredini ‘Júpiter’ – As Revoluções Solares do Líder Legionário”, escrito por Mariana Candeias “Piky”, analisa sua obra do ponto de vista da astrologia.

Só de discos póstumos da carreira solo, foram quatro, com direito a novos hits. É o caso de "Mais Uma Vez", parceria de Renato Russo com Flávio Venturini, gravada originalmente pelo grupo 14 Bis ainda na década de 1980.

Relançada no disco "Presente", de 2003, a música chegou a ser a mais tocada daquele ano. E os versos "mas é claro que o sol vai voltar amanhã..." se transformaram em hino de esperança e otimismo.

'A Legião não existe mais desde 1996', diz Bonfá

Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos também voltaram a se reunir em shows celebrando a história da Legião, que também é a deles. Em agosto, tocaram o repertório do disco "Dois" no Festival C6 no Rock, em São Paulo, tendo o ator e cantor André Frateschi nos vocais.

"Eu e Dado nós reunimos com shows relembrando nossos álbuns e composições e ainda teríamos alguns projetos do mesmo gênero pela frente, nada está descartado", avisa Bonfá, que já vê como superada a disputa na Justiça com Giuliano Manfredini, filho de Renato, pelos direitos de uso do nome da banda:

"A Legião Urbana não existe mais desde 1996 e eu nunca tive e não tenho interesse em usar este nome sem meu querido amigo Renato".

A despedida da banda pode ter sido mesmo naquele show de Santos, em São Paulo, no dia 14 de janeiro de 1995, quando o trio se reuniu no palco pela última vez. A poesia de Renato Russo, no entanto, segue viva.

"Essas canções que estão aí chegando nas pessoas e tocando corações e mentes até hoje. Isso é muito, muito bacana de perceber e de ver que nada... nem foi tempo perdido. A gente fez o melhor e o Renato estava à frente, de certa forma, disso tudo e que era esse cara que sabia aonde ele queria chegar", acredita Dado.